por Turian
Dois pós-créditos que mexem com o tabuleiro
Thunderbolts* não guarda só um mimo para quem fica na sala. O filme entrega duas cenas pós-créditos e, nelas, uma virada com impacto direto no futuro do MCU: 14 meses depois dos eventos principais, o grupo é apresentado publicamente como os Novos Vingadores, com base operacional no antigo Avengers Tower, novos uniformes e orçamento que eles nunca sonharam ter. É a consagração pública de personagens que nasceram na zona cinzenta da moral.
Antes desse salto no tempo, a história fecha a conta com um risco interno: Bob, o Sentinela, quase sucumbe ao Void, sua persona sombria e violenta. Valentina Allegra de Fontaine, artífice das intrigas, joga sujo, tenta colocar o time uns contra os outros e ordena que o Sentinela “resolva o problema” de forma definitiva. O plano falha quando a equipe se une de verdade. Yelena Belova encara o impossível, entra na dimensão do Void para alcançar o Bob de carne e osso. Com apoio de Bucky Barnes e dos demais, ela ajuda Bob a trancar o Void lá no fundo, sem extingui-lo — um controle frágil, mas suficiente para evitar um desastre urbano.
Quem são os rostos do time? Uma seleção improvável, com histórico pesado e experiência de campo:
- Bucky Barnes (Soldado Invernal), veterano de guerra com cicatrizes profundas;
- Yelena Belova, espiã afiada e líder tática cada vez mais natural;
- John Walker (Agente Americano), soldado patriota com moral inflexível;
- Fantasma (Ghost), especialista em infiltração, marcada por instabilidade quântica;
- Treinador (Taskmaster), capacidade de replicar estilos de luta;
- Guardião Vermelho, músculo e ironia em doses similares;
- Bob/Sentinela (Sentry), poder quase ilimitado e um lado sombrio incontrolável.
Com a cidade ainda fumegando, Valentina gira a narrativa. Ela convoca a imprensa às pressas e vende os Thunderbolts como “os heróis que salvaram todo mundo” e, de quebra, rebatiza a equipe como “os Novos Vingadores”. É a jogada de xadrez que livra a própria pele, enquadra o time sob seu guarda-chuva e reescreve a memória coletiva: de párias para salvadores em uma coletiva de última hora.
Conexões, treta legal e a porta escancarada para o futuro
As duas cenas pós-créditos se passam um ano e dois meses depois e confirmam que o rótulo pegou. Os Novos Vingadores operam com estrutura, tecnologia e vitrine. Só que o MCU não dá nada de graça. Um detalhe curioso alimenta a próxima fase: Sam Wilson, o Capitão América em atividade, entra com um processo por violação de direitos sobre o uso do nome “Vingadores”. O ponto legal pode soar técnico, mas a consequência dramática é clara: quem decide quem carrega o legado? Os veteranos? A opinião pública? Ou quem tem o prédio, a verba e a narrativa a favor?
Esse contencioso promete dividir atenções. De um lado, o peso simbólico dos Vingadores originais. Do outro, um time que ganhou a rua e resultados. Se a disputa escalar, dá para esperar desde batalhas de opinião até missões concorrentes, com a imprensa e governos escolhendo lados. No meio, Valentina, que agora precisa oscilar entre “mentora” e “refém” — e a provocação final de Yelena, um sussurrado “agora a gente é que manda em você”, joga luz no novo equilíbrio de poder.
O último pós-créditos, filmado pelos irmãos Russo — que estão à frente de Avengers: Doomsday —, solta a bomba que faltava: o Quarteto Fantástico chega por uma nave multidimensional com o número 4 estampado. É um aceno direto para Fantastic Four: First Steps e um convite sem rodeios para o próximo grande encontro. A entrada do Quarteto abre caminho para temas maiores: realidades paralelas, ciência em escala cósmica e vilões que brincam com as leis da física. E reforça que os Novos Vingadores vão dividir cena com pesos-pesados.
Esse cruzamento não foi improviso. A cena funciona como peça de encaixe entre filmes e entrega um “mapa” do que vem aí. Com a marca dos Russo, o tom é de continuidade controlada: costura-se o que foi apresentado aqui com o que a próxima fase quer explorar, sem engessar a história do time, que ainda tem arestas soltas.
Nos bastidores, uma curiosidade: o diretor Jake Schreier contou que a ideia original de pós-créditos era bem diferente — um retorno surreal ao começo do filme, com o porquinho-da-Índia que Yelena resgata no laboratório da OXE aparecendo dentro da dimensão do Void, correndo por “salas da vergonha”. Divertido? Sim. Relevante? Nem tanto. O estúdio bancou o caminho mais consequente, que amarra franquias e já aponta para o que interessa ao público agora.
E o desempenho? A crítica embarcou: a produção cravou 88% no Rotten Tomatoes, a maior nota da Fase 5 até aqui. No caixa, ficou aquém das expectativas: US$ 382 milhões para um orçamento de US$ 180 milhões. A reviravolta veio no streaming: depois de 27 de agosto, no Disney+, o boca a boca digital puxou novos olhares e deu outra vida ao filme, principalmente para quem acompanha o MCU pelo impacto nos próximos capítulos.
Do ponto de vista de personagem, há um saldo interessante. Yelena surge como polo emocional e estratégico. Bucky, com seu passado de Soldado Invernal, encontra no grupo uma missão que não dependa só de remorso, mas de proteção ativa. Walker segue como tensão ambulante: funcional em campo, imprevisível em escolhas. Ghost e Taskmaster ganham espaço como especialistas sem glamour, mas essenciais quando a coisa aperta. E o Guardião Vermelho é o “quebra-gelo” que, aqui e ali, garante que o tom não escorregue para o sombrio absoluto.
O elemento mais volátil continua sendo Bob/Sentinela. Trancar o Void “lá dentro” é diferente de resolvê-lo. A presença de um herói com poder quase ilimitado e um alter ego destrutivo cria um relógio sempre prestes a disparar. A equipe sabe disso, Valentina sabe disso e, após o reposicionamento público, o mundo também vai perceber. É o tipo de ativo que vira alvo de vilões, governos e cientistas — e que convida o Quarteto Fantástico a conversar sobre limites e contenção.
A mudança para o antigo Avengers Tower carrega símbolo e pergunta. Símbolo, porque é um retorno à casa que o público reconhece. Pergunta, porque alguém banca essa operação. Quem assina o cheque? O setor privado por trás de Valentina? Um arranjo governamental? E como isso se alinha com acordos e regulações que já azedaram a vida de heróis no passado? Não é detalhe: o financiamento define a agenda e pode reforçar a crítica de Sam Wilson sobre quem tem legitimidade para usar o nome “Vingadores”.
No curto prazo, o MCU ganha um trio de fios condutores: a marca “Novos Vingadores” testada na arena pública, a chegada do Quarteto que expande o alcance científico da narrativa e o conflito jurídico que cutuca a herança dos Vingadores originais. No médio, o encontro com Avengers: Doomsday parece inevitável, com os Russo ditando a cadência entre filmes para que os arcos não se percam em cameos sem consequência.
Se o objetivo era tirar os Thunderbolts do limbo moral e colocá-los sob o sol, missão cumprida. Agora vem a parte difícil: sustentar essa luz sem derreter as bases. Com um Sentinela em equilíbrio precário, Valentina encurralada pelo próprio álibi e um Capitão América disposto a brigar no tribunal, a tal “fase heróica” do grupo começa turbulenta. Ótimo para a história. Melhor ainda para quem gosta de ver o MCU se arriscando de verdade.
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